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Florbela Espanca / Carta para longe
IdiosCarta para longe [ Florbela Espanca in O Livro D’Ele ] O tempo vai um encanto, A Primavera ‘stá linda, Voltaram as andorinhas... E tu não voltaste ainda!... Porque me fazes sofrer? Porque te demoras tanto? A Primavera ‘stá linda... O tempo vai um encanto... Tu não sabes, meu amor, Que, quem ‘spera, desespera? O tempo está um encanto... E, vai linda a Primavera... Há imensas andorinhas; Cobrem a terra e o céu! Elas voltaram aos ninhos... Volta também para o teu!... Adeus. Saudades do sol, Da madressilva e da hera ; Respeitosos cumprimentos Do tempo e da Primavera. Mil beijos da tua querida, Que é tua por toda a vida.6 views 1 comment -
Florbela Espanca / Rústica
Idios[ Florbela Espanca ] [ in O Livro D’Ele ] [Verse 1] Eu queria ser camponesa; Ir esperar-te à tardinha Quando é doce a Natureza No silêncio da devesa, E só voltar à noitinha... [Verse 2] Levar o cântaro à fonte Deixá-lo devagarinho, E correndo pela ponte Que fica detrás do monte Ir encontrar-te sozinho... [Verse 3] E depois quando o luar Andasse pelas estradas, D’olhos cheios do teu olhar Eu voltaria a sonhar, Pelos caminhos de mãos dadas. [Verse 4] E depois se toda a gente Perguntasse: “Que encarnada, Rapariga! Estás doente?” Eu diria: “É do poente, Que assim me fez encarnada!” [Verse 5] E fitando ao longe a ponte, Com meu olhar cheio do teu, Diria a sorrir pro monte: “O cântaro ficou na fonte Mas os beijos trouxe-os eu...”14 views 1 comment -
Florbela Espanca / Desdém
IdiosDesdém [ Florbela Espanca ] Andas dum lado pro outro Pela rua passeando; Finges que não queres ver Mas sempre me vais olhando. É um olhar fugidio, Olhar que dura um instante, Mas deixa um rasto de estrelas O doce olhar saltitante... É esse rasto bendito Que atraiçoa o teu olhar, Pois é tão leve e fugaz Que eu nem o sinto passar! Quem tem uns olhos assim E quer fingir o desdém, Não pode nem um instante Olhar os olhos d’alguém... Por isso vai caminhando... E se queres a muita gente Demonstrar que me desprezas Olha os meus olhos de frente!...7 views -
Florbela Espanca / Humildade
IdiosHumildade [ Florbela Espanca in O Livro D’Ele ] Toda a terra que pisas, eu queria, ajoelhada, Beijar terna e humilde em lânguido fervor; Queria poisar fervente a boca apaixonada Em cada passo teu, ó meu bendito amor! De cada beijo meu, havia de nascer Uma sangrenta flor! Ébria de luz, ardente! No colo purpurino havia de trazer Desfeito no perfume o misterioso Oriente! Queria depois colher essas flores reais, Essas flores de sonho, estranhas, sensuais, E lançar-tas aos pés em perfumados molhos. Bem paga ficaria, ó meu cruel amante! Se, sobre elas, eu visse apenas um instante Cair como um orvalho os teus divinos olhos!10 views 1 comment -
Oração de Joelhos
IdiosOração de joelhos [ Florbela Espanca in O Livro D’Ele ] Bendita seja a mãe que te gerou! Bendito o leite que te fez crescer! Bendito o berço aonde te embalou A tua ama pra te adormecer! Bendito seja o brilho do luar Da noite em que nasceste tão suave, Que deu essa candura ao teu olhar E à tua voz esse gorjeio d’ave! Benditos sejam todos que te amarem! Os que em volta de ti ajoelharem Numa grande paixão, fervente, louca! E se mais, que eu, um dia te quiser Alguém, bendita seja essa mulher! Bendito seja o beijo dessa boca!28 views 1 comment -
Florbela Espanca / Quem Sabe!?
IdiosQuem sabe?! [ Florbela Espanca in O Livro D’Ele ] Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino: Beber o fel amargo em luminosa taça, Chorar amargamente um beijo teu, divino, E rir olhando o vulto altivo da desgraça! Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito; Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te Se um sonho pode andar por todo o infinito, De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?! Demais, nem eu talvez, perceba se o amor É este perseguir de raiva, de furor, Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais. Ou se é então a fuga eterna, misteriosa, Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa! Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!9 views -
Florbela Espanca / Aonde
IdiosAonde [ Florbela Espanca in O Livro D’Ele ] Ando a chamar por ti, demente, alucinada, Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?... O eco ao pé de mim segreda... desgraçada... E só a voz do eco, irônica, responde! Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda! O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar; Parece a tua voz, a tua voz tão linda Cantando como um rio banhado de luar! Eu grito a minha dor, a minha dor intensa! Esta saudade enorme, esta saudade imensa! E Só a voz do eco à minha voz responde... Em gritos, a chorar, soluço o nome teu E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu: Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...13 views 1 comment -
Florbela Espanca / Confissão
IdiosConfissão [ Florbela Espanca in O Livro D’Ele ] Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa De frio e de gelado, de pérfido e cruel, Como um orvalho frio no tampo duma lousa, Como em doirada taça algum amargo fel. Odeio-te também. O teu olhar ideal O teu perfil suave, a tua boca linda, São belas expressões de todo o humano mal Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda. Desprezo-te também. Quando te ris e falas, Eu fico-me a pensar no mal que tu calas Dizendo que me queres em íntimo fervor! Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma Confessa-lo a rir, muito serena e calma! Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!...9 views -
Florbela Espanca / Desejo
IdiosQuero-te ao pé de mim na hora de morrer. Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade, Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver Amortalhado sempre à luz duma saudade! Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco Se ungir da palidez sinistra do não ser, E quero ainda, amor, no meu supremo arranco Sentir junto ao meu seio teu coração bater! Que seja a tua mão tão branda como a neve Que feche o meu olhar numa carícia leve Em doce perpassar de pétala de lis... Que seja a tua boca rubra como o sangue Que feche a minha boca, a minha boca exangue!... Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!...20 views 1 comment -
Florbela Espanca / Sonhando
IdiosSonhando [ Florbela Espanca in O Livro D’Ele ] É noite pura e linda. Abro a minha janela E olho suspirando o infinito céu, Fico a sonhar de leve em muita coisa bela Fico a pensar em ti e neste amor que é teu! D’olhos fechados sonho. A noite é uma elegia Cantando brandamente um sonho todo d’alma E enquanto a lua branca o linho bom desfia Eu sinto almas passar na noite linda e calma. Lá vem a tua agora... Numa carreira louca Tão perto que passou, tão perto à minha boca Nessa carreira doida, estranha e caprichosa Que a minh’alma cativa estremece, esvoaça Para seguir a tua, como a folha de rosa Segue a brisa que a beija... e a tua alma passa!.12 views